Por IDA NUÑEZ, de São Paulo.
A solidão virou hábito.
Não sei se isso é consciente para todos, mas estamos cada vez mais solitários.
Vivemos num mundo virtual, com reuniões por vídeo, mensagens em grupos de WhatsApp, textos, áudios, e assim acabamos sacrificando nossa percepção.
Quando estamos presentes, a comunicação é mais rica, pois observamos o corpo, as expressões faciais e o tom de voz.
Existe mais velocidade, mas, acima de tudo, mais percepção. Quando trocamos mensagens, o texto é frio.
A gentileza de um “bom dia”, um café que tomamos juntos ou mesmo um bate-papo sobre o clima, uma notícia ou simplesmente sobre o trânsito acaba revelando muito mais de nós do que uma digitação.
Isolados em nossas bolhas de solidão, olhamos para o mundo a partir do nosso umbigo, e isso é muito natural, pois estamos sempre buscando nossa comodidade. Mas, penso que podemos estar criando padrões de comportamento que estão influenciando nossa vida sem nem mesmo notarmos.
Listei 3(três) que observo no dia a dia e que me preocupam.
✅ Nos comunicamos com prompts: hoje, o relacionamento no trabalho muitas vezes se dá por mensagens enviadas a todo momento. Eu mesmo já me vi mandando um texto para perguntar se uma colega havia lido um e-mail. Nossa linguagem, assim, se torna cada vez mais direta e, muitas vezes, rude. Vale reforçar a gentileza.
✅ Estamos menos presentes: vejo pessoas que sempre se desculpam por não estarem presentes nos encontros. O conforto de casa e a comodidade de não enfrentarmos o trânsito e os perrengues não nos motivam a abandonar nossos espaços. A consequência é que vamos nos afastando das pessoas. Reserve tempo presencial para as pessoas que você ama.
✅ Falamos menos: passamos mais tempo sozinhos, e é natural que o número de conversas às quais somos expostos diminua. Com isso, vejo gente totalmente contrária ao contato direto. A mensagem de texto é sempre a prioridade; falar ao telefone é algo irritante. Ao vivo, presentes, o diálogo é difícil, e as pessoas, mesmo estando com amigos, voltam para suas telas. Um fenômeno que às vezes me dá a sensação de que estamos reforçando a timidez. Quando estiver com outras pessoas se divertindo desligue seu telefone.
Sei que tudo isso está relacionado a como usamos a tecnologia.
Esse assunto é recorrente nas minhas leituras, estudos e artigos.
Nessa hora, gosto de lembrar do diferencial do humano.
Sou apaixonado por nossa inventividade, pela capacidade que temos de criar coisas.
Você já se deu conta de como somos criativos e de como surpreendemos?
Penso que não existe limite para a criatividade humana; todos os dias, alguns de nós desafiam as possibilidades, tentando fazer algo que alguém acreditava ser impossível.
O problema é que, muitas vezes, as novidades mudam nossos comportamentos.
A tecnologia nos envolve como água: depois de um tempo dentro dela, não notamos mais sua influência.
Aprendi com David Foster Wallace, que o peixe não entende a água em que foi criado, pois nasceu e viveu dentro dela a vida toda.
Enquanto uma tecnologia é nova, ela é percebida; quando se torna comum, não notamos mais seu impacto.
Gerações futuras têm muita dificuldade de entender sua influência, pois, como o peixe, estão imersas nela.
Esses três hábitos que relacionei acima são exemplos de comportamentos gerados a partir da adoção de tecnologias.
A grande questão é que muitos deles podem nos trazer tristeza, infelicidade e solidão.
Vivemos num mundo com pessoas doentes que não sabem que estão doentes.
Se você puder, reveja alguns de seus hábitos.
Esteja presente nas reuniões, participe ativamente.
Se o papo for virtual, abra sua câmera. Você vai notar que as pessoas sentem muita falta de você.
Boa semana!
